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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A LENDA DO GRAAL E O ‘PARSIFAL’ DE WAGNER – (Desvelados por Max Heindel).



“Citarei a verdade onde a encontrar”.
(Richard Bach) 
[Clic nos olhos e imagens para abrir]
'Olho-de-Hórus' (direito). Simboliza o Sol e o Espírito divino: 'Olho onisciente que a tudo vê'. magisterlux./ ‘Olho de Hórus’  'Olho-de-Hórus' (esquerdo). Simboliza a Lua e a Alma divina: 'Olho que discerne as trevas'. magisterlux./
‘O Portal aos Mistérios’
Desvelando Segredos da Vida
“Ouvis o Chamado?”
– Agradecei então a Deus por ter-vos concedido ouvi-lo!
(’Parsifal’ – Ato I. Primeira Parte).
INTRÓITO: “A experiência mais bonita que se pode ter é a do misterioso… Aquele para quem esta emoção é uma estranha, quem já não pode pausar para admirar e maravilhar-se, é como se estivesse morto”… Albert Einstein.
“Somos poeira de estrelas estruturada pelo tear da vida”… diz o editor Ulisses Capozolli da ‘Scientific American Brasil’. “Pessoas de boa cultura consideram a mitologia coisa do passado, relato ingênuo dos primeiros tempos… Mas a verdade é que a mitologia está na base da ciência atual e perpassa cada uma das histórias que dizem respeito à natureza do mundo. Leve em conta os nomes das constelações e você encontrará os mitos espalhados pelo céu”. (‘Anuário de Astronomia’. 2008, p.03. Dez. 2007). 
E Carl Jung,  sobre mitos, disse: “Das vinte e quatro horas do dia passamos pelo menos dezesseis exclusivamente  neste mundo, e as oito restantes em um estado inconsciente. Onde ou quando nos acontece algo que nos lembre, mesmo longinquamente, ocorrências tais como anjos, milagres, etc.?
Por isso foi uma descoberta quando se verificou que no estado inconsciente de sono ocorrem intervalos denominados “sonhos”, e que nestes às vezes ocorrem cenas que guardam uma semelhança nada desprezível com os temas dos mitos. Os mitos são narrativas maravilhosas e tratam justamente de tudo aquilo que, muitas vezes, é também objeto de fé”…
 ”É bem difícil encontrar algo semelhante no universo cotidiano da existência… Se os conceitos metafísicos já não exercem quase nenhum fascínio sobre os homens, certamente não é pela falta de originalidade e primitividade da alma européia, mas  exclusivamente porque os símbolos tradicionais já não exprimem aquilo que o fundo do inconsciente quer ouvir”… [Cf. AION' - Estudos Sobre o Simbolismo do Si-Mesmo', § 66 e 67. Vozes].
E o simbolismo perdido por trás do mito  de Parsifal, pode ser resgatado e  acessível a compreensão, quando Max Heindel nos desvela a simbologia templária e o significado amplo e profundo desta lenda cristã, na sua obra ‘Cristianismo Rosacruz’,  cujos trechos você pode ver a seguir.
No final deste texto transcrevemos outros informes sobre Wagner e seu ‘Parsifal’…  [Φ]  (Campos de Raphael).
O ‘PARSIFAL’ DE WAGNER
(Simbolismo desvelado por Max Heindel)
Parsifal.Libreto da Ópera de Wagner
O ‘Parsifal’ de Wagner, tem início num cenário próximo ao Castelo de Montsalvat. Este é um lugar de paz, onde toda vida é sagrada e os animais e aves não sentem temor algum porque os cavaleiros do Graal, como quaisquer homens verdadeiramente santos, são inofensivos e inocentes, que não matam para comer, e tampouco por esporte, aplicando a todos os seres viventes a máxima: “Vivei e deixai viver”.
Aurorea e Gunermanz, o mais velho dos cavaleiros do Graal, encontra-se sob uma árvore, com dois escudeiros. Despertando de seu repouso noturno, vêem à distância Kundry aproximando-se, galopando num cavalo selvagem. Vemos em Kundry a criatura de dupla existência, uma como servidora do Graal, ansiando servir por todos os meios ao seu alcance aos desígnios dos cavaleiros do Graal, e esta parece ser a sua verdadeira natureza…
A outra existência é vivida como escrava involuntária do mago negro Klingsor, MontsalvatLugar de paz e amizade, entre homens e animais.forçada a tentar e mortificar aos cavaleiros do Graal, a quem deseja servir. O portal entre uma e outra existência é a porta do “sono”; e se vê obrigada a servir quem a encontra e a desperta. Se for Gunermanz, torna-se a fiel servidora do Graal; mas, se Klingsor a evoca por meio de suas bruxarias, vê-se forçada a servir seus intentos maléficos, quer ela queira ou não…
Na primeira parte do drama, Kundry veste uma túnica de peles de serpentes, símbolo da doutrina do renascimento* (¹), porque assim como a serpente cria nova pele capa após capa, e a exsuda de si mesma, assim também o Ego (²), no processo evolutivo de seu desenvolvimento, desprende de si  qual serpente um corpo após outro, abandonando cada veículo quando ele se torna endurecido e cristalizado, ou seja, quando perde a sua eficiência.
O renascimento (*) está associado ao ensino da Causalidade, a lei que nos traz os frutos de tudo o que semeamos. É a lei explícita nas palavras de Gunermanz, quando o seu jovem escudeiro expressa sua desconfiança em Kundry, e então Gunermanz responde:
“Ela pode estar sob alguma maldição,
 Fruto de alguma vida passada que não vemos,
 Buscando libertar-se do pecado,
 Por meio de obras que lhe parecem boas…
 Certamente ser-lhe-á benéfico seguir assim,
 Ajudando-se a si mesma quando a outros ajuda”…
Quando Kundry entra em cena, retira do seio um frasco dizendo que o traz da Arábia, esperando seja um bálsamo para o ferimento no flanco de Amfortas, o rei do Graal, cuja ferida lhe causa sofrimentos indizíveis e jamais pôde ser curada. O rei enfermo é trazido então reclinado numa liteira; irá banhar-se no lago próximo, como o faz diariamente, onde dois cisnes nadam, convertendo as águas numa poção balsâmica para seus terríveis sofrimentos.
Amfortas agradece a Kundry, mas diz que acredita não haver alívio para ele enquanto não vier o libertador, profetizado pelo Graal: “Um tolo virgem, inocente, iluminado pela compaixão”. Mas Amfortas pensa que a morte chegará antes da libertação…
Quando retiram Amfortas, quatro dos jovens escudeiros agrupam-se ao redor de Gurnemanz, rogando-lhe que lhes conte a história do Graal e a ferida do rei Amfortas. Todos se recostam sob a árvore, e então Gurnemanz começa:
   Fortaleza do Graal cátaro.Montsegur.1973 (Sul da França)
Castelo de Montségur ‘Fortaleza do Graal’
[Lugar de peregrinação: 1963 e 1980]
“Na noite em que nosso Senhor e Salvador, Cristo Jesus, celebrou a última ceia com os discípulos, bebeu o vinho de um certo cálice mais tarde usado por José de Arimatéia para recolher o sangue vital que fluía da ferida no flanco do Redentor. Guardou também a lança sangrenta com a qual o feriram, levando consigo essas relíquias, enfrentando muitos perigos e perseguições. >
“Por último, essas relíquias ficaram sob o encargo dos anjos, até que certa noite um mensageiro místico enviado por Deus a Titurel, pai de Amfortas, pediu-lhe para construir um castelo a fim de recebê-las e guardá-las em segurança…
Ele construiu então o castelo de Montsalvat numa elevada montanha, e ali depositadas as relíquias sob sua custódia e a de um grupo de cavaleiros santos e castos que se lhe agregaram. E Montsalvat converteu-se por fim num centro de poderosas influências espirituais, que fluíam para o mundo exterior… >
“Todavia, longe dali, vivia num vale pagão um cavaleiro negro que, embora não fosse casto, desejava tornar-se cavaleiro do Graal, e para esse fim castrou-se, privando-se da capacidade de gratificar suas paixões, mas estas subsistiam… Ao ver o coração desse homem cheio de sombrios desejos, o rei Titurel recusou admiti-lo. E Klingsor jurou então que se não podia servir o Graal, o Graal o serviria. >
“E construiu um castelo rodeado de um jardim mágico, repleto de donzelas de extraordinária beleza e recendendo a um perfume como o das flores. E desse modo, como os cavaleiros do Graal precisavam atravessar o jardim mágico ao sair ou voltar a Montsalvat, eram tentados a sentir desejos de violar o voto de castidade e o juramento de fé, convertendo-se assim em prisioneiros de Klingsor, e poucos restaram como fiéis defensores do Graal. >
“Nesse ínterim, Titurel havia confiado a custódia do Graal ao seu filho Amfortas e este, vendo os sérios inconvenientes produzidos por Klingsor, decidiu sair para combatê-lo. Para esse fim levou consigo a lança sagrada.
O astucioso Klingsor, porém não foi ao encontro de Amfortas, e sim evocou magicamente a Kundry, transformando sua aparência hedionda, como aparece quando servidora do Graal, numa mulher extremamente bela. Dominada pela sórdida magia de Klingsor, Kundry vai ao encontro do rei Amfortas e tenta-o, até ele render-se em seus braços, deixando cair a lança sagrada. >
“Klingsor aparece então, apodera-se da lança e fere ao rei indefeso. E Amfortas seria aprisionado, se não fosse os heróicos esforços de Gunermanz. Não obstante, Klingsor conseguiu manter em seu poder a lança sagrada, e Amfortas desde então retorce de dor, porque a ferida não pôde mais ser curada”…
Castelo dos Cisnes.(Neuschwanstein.Alemanha)Nesse ponto da história, os jovens escudeiros erguem-se exaltados, afirmando que irão vencer a Klingsor e recuperarão a lança. Gunermanz meneia tristemente a cabeça, dizendo que essa tarefa está mais além de as forças deles; reitera, porém a profecia de que a redenção de Amfortas será efetuada por “um tolo, puro e iluminado pela compaixão”…
Ouvem-se então gritos: ‘O cisne! Oh, o cisne!’ – Efetivamente um cisne esvoaça e revoluteia por instantes, caindo morto aos pés de Gunermanz, enquanto os jovens escudeiros se agitam ao assistir a tudo isso. E logo outros escudeiros trazem um jovem vigoroso, armado de arco e flechas, e Gunermanz o interroga com tristeza:
“Por que mataste esta inocente criatura?” E o moço responde de modo ingênuo, inocente: “Fiz algum mal?” – Gunermanz então lhe fala sobre o rei enfermo e da parte exercida pelo cisne no preparo do banho sanativo. Suas palavras comovem profundamente a Parsifal, levando-o a quebrar o seu arco…
- Em todas as religiões, o espírito vivificador tem sido representado simbolicamente como uma ave. No batismo, quando o corpo de Jesus estava na água, o Espírito de Cristo desceu a ele como uma pomba.
“O Espírito move-se sobre as águas”, o meio fluídico, assim como os cisnes se movem na água do lago sob a árvore da vida na mitologia norueguesa, o Yggdrasill, ou sobre as águas do lago na lenda do Santo Graal.
A ave representa a influência espiritual direta mais elevada, e por essa razão os cavaleiros bem podiam lamentar sua perda. A Verdade é múltipla. Há pelo menos sete interpretações exatas de cada mito, uma para cada mundo, e olhado do ponto de vista material, a compaixão gerada em Parsifal ao quebrar o seu arco, marca um passo definido na vida superior…
Ninguém pode ser verdadeiramente compassivo nem tampouco auxiliar na evolução enquanto mate para comer, quer pessoalmente ou por meios indiretos. Viver de modo inocente, sem causar dano a nenhum ser, é um pré-requisito essencial para participar da vida espiritual auxiliadora.
“Vivei e deixai viver”…
Gunermanz começa a interrogar Parsifal sobre si mesmo; quer saber quem é e como veio a Montsalvat. Mas, Parsifal demonstra uma ignorância surpreendente. A todas essas perguntas, responde: “Eu não sei”…
Por fim, Kundry se adianta e diz: “Eu posso dizer-lhes quem ele é. Seu pai era o nobre Gamuret, um príncipe dos homens que morreu lutando na Arábia, quando o filho estava ainda no seio de sua mãe, a senhora Herzleide”. Ao expirar, Gamuret deu ao filho o nome de Parsifal, o tolo casto. E a mãe, temendo que aprendesse a arte da guerra e o levassem, conduziu-o para um denso bosque onde foi mantido na ignorância das armas e da guerra.
E Parsifal concordando, diz: “Sim, um dia vi alguns homens cavalgando bestas informes, e quis ser como eles; por isso os segui durante muitos dias até que por fim cheguei aqui e tive que lutar com muitos homens monstruosos”…
Na história, pinta-se um quadro excelente da alma investigadora das realidades da vida. Gamuret e Parsifal figuram diferentes fases da vida da alma. Gamuret é o homem do mundo que, a seu tempo, ligou-se a Herzleide. Herzleid [do alemão, herz, coração, e leid, sofrimento], que, em outras palavras quer dizer, “aflição do coração”.
Conhece a dor e morre para o mundo, como o fazem todos os que se voltam para a vida superior. Enquanto o barco de nossa existência navega por águas tranqüilas e a vida nos parece esplêndida, não há canto suficientemente doce que possa encaminhar nossos passos para a vida superior. Todas as fibras de nosso corpo gritam: “Isto é suficiente bom para mim”.
Quando, porém as garras da adversidade nos ferem, quando cada onda ameaça tragar-nos, experimentamos então a dor do coração, que nos torna entristecidos, homens prontos para nascer como Parsifal, o tolo puro e casto, isto é, a alma que volta às costas a sabedoria do mundo e sai em busca das coisas do espírito, tornando-nos assim um pobre de espírito, um tolo ante os olhos do mundo.
Deixa para trás tudo o que se refere à vida passada, inclusive as tristezas, tal como Parsifal deixou Herzleide (a aflição do coração). E se diz que morreu, porque ele não mais se voltou para ela. Assim também morre a tristeza, quando a alma anelante nasce e afasta-se do mundo, embora nele permaneça para cumprir com seus deveres, ainda que não pertença mais ao mundo…
Nesse ínterim, Gunermanz, intuindo que Parsifal é o libertador de Amfortas, leva-o pela senda que conduz ao castelo do Graal. E quando Parsifal pergunta-lhe quem é o Graal, Gunermanz responde:
“Não te o direi; mas se Ele é que está a ti guiar,
A Verdade oculta, diante de ti se desvelará.
Para mim, o teu rosto até me parece familiar,
Pois a Ele nenhuma senda pode levar,
E ao buscá-la somente mais se distanciará,
Salvo se for Ele mesmo quem está a ti guiar”…
Wagner nos leva aqui aos tempos pré-cristãos, porque antes do advento de Cristo, a iniciação não estava aberta para “quem a quisesse”, e sim reservada ou concedida a certos eleitos, em troca de certos privilégios especiais por dedicar-se ao serviço do templo, como no caso das castas dos levitas e dos brâmanes.
A vinda de Cristo, porém produziu mudanças definidas na humanidade, e agora todos podem ingressar na senda da iniciação. Certamente, isto passou a ocorrer desde o momento em que os matrimônios internacionais acabaram com as castas.
No castelo do Graal, Amfortas se vê importunado de várias maneiras para que realize o sagrado rito do serviço ao Graal, desvelando o cálice sagrado, a fim de que, ao contemplá-lo, o ardor e ânimo dos cavaleiros sejam renovados para continuar prestando o seu serviço espiritual.
Amfortas, porém estremece de temor e angústia, pois sabe que o simples fato de ver o Graal, causar-lhe-á sofrimentos indizíveis; a ferida em seu dorso continuaria jorrando sangue ante a sua presença, do mesmo modo que a ferida do remorso também nos aflige e oprime quando pecamos contra o nosso ideal.
Por fim, cedendo aos rogos conjuntos de seu pai Titurel e de seus cavaleiros, Amfortas celebra o sagrado rito, sofrendo durante o ritual espantosas angústias. Parsifal, postado a um canto, assiste a tudo e sente por empatia as mesmas dores, sem compreender por quê.
Ao término da cerimônia, ansioso, Gunermanz pergunta-lhe o que viu, mas Parsifal está ainda estonteado e permanece em silêncio. Irritado, por sentir-se frustrado em suas esperanças, Gunermanz então o expulsa do castelo…
As emoções e sentimentos quando não controlados pelo conhecimento, são mananciais de tentação. A própria inocência da alma, faz com que seja presa fácil do pecado. Por isso, para o crescimento anímico, torna-se necessário existir as tentações, para revelar e fortalecer-nos contra nossos próprios pontos débeis.
E sofreremos como Amfortas quando caírmos; o sofrimento, porém desenvolve e expande a consciência, traz a rejeição pelo pecado e saímos fortalecidos contra a tentação. As crianças são inocentes porque ainda não foram tentadas. Só quando somos tentados e permanecemos puros, ou se caímos, arrependemos e reformamo-nos, podemos tornar-nos virtuosos. Parsifal, portanto, devia ser tentado…
No Segundo Ato, vemos Klingsor no momento em que evoca a Kundry, porque espreitara Parsifal vindo em direção ao castelo, e o teme mais do que a qualquer outro, por saber ser ele um tolo. Um homem sabiamente mundano poderia cair facilmente nas ciladas das jovens-flores, mas a ingenuidade de Parsifal protege-o contra si próprio. E quando as jovens-flores se agrupam a seu redor, ele lhes pergunta inocentemente: “Sois flores? Cheiram tão docemente”.
De novo se faz necessário a refinada astúcia de Kundry que, embora proteste e se rebele, ainda assim vê-se obrigada a tentar Parsifal. Com esse objetivo, sê-lhe aparece como uma mulher de soberba beleza, chamando-o pelo nome.
O nome excita as nostalgias de sua juventude, o amor de sua mãe, e Kundry o atrai para junto de si e procura atuar sobre os seus sentimentos, evocando ante sua memória às visões do amor materno e das tristezas de sua mãe, quando Parsifal dela se afastou, levando-a a sentir tal dor, que acabou com sua vida.
Kundry, fala-lhe então de outro amor que pode compensá-lo: o amor do homem pela mulher e, por fim, dá-lhe nos lábios um longo e ardente beijo, apaixonado.
Nesse instante, produz-se um silêncio profundo, terrível, como se o destino do mundo inteiro pendesse da balança daquele ardente beijo, e enquanto ela ainda o retém em seus braços, a face de Parsifal sofre gradual mudança, expressando profunda dor…
Ele se ergue, de súbito, como se esse beijo despertasse em seu ser uma nova dor. As linhas de seu pálido rosto tornam-se mais intensas e suas mãos se juntam sobre o coração, como se sofresse uma terrível angústia. O cálice, o Graal, aparece ante sua visão, e vê a Amfortas sofrendo a horrenda agonia, e por fim grita:
“Amfortas, oh Amfortas! Agora sei da lançada em seu flanco, e ela queima meu coração e desgarra minha alma mesma… Oh dor! Oh miséria! Que indizível agonia! A ferida está sangrando em meu próprio peito!”
E de novo, com a mesma comoção, diz: “Não, não é a lançada o que há em meu peito, porque é fogo e chama o que em meu coração inclina meus sentidos ao delírio, à terrível loucura do amor atormentador… Agora sei como se excita, convulsiona e se perde em vergonha o mundo pelas terríveis paixões do coração”.
Kundry tenta-o novamente: “Se um único beijo te trouxe tanto conhecimento, quantos mais entesourarias se te entregares a meu amor, ainda que seja apenas por uma hora?”.
Mas, nele já não existe hesitação. Parsifal agora despertou; conhece o bem e o mal, e replica: “Perderíamos, porém a eternidade no instante que me entregasse a ti, mesmo só por uma hora. Quero também salvar-te e libertar-te da maldição da paixão, porque o que arde dentro de ti é apenas amor sensual. E entre esse e o verdadeiro Amor dos corações puros existe um abismo tão grande como o que separa os céus do inferno”.
Quando por fim Kundry se vê obrigada a confessar-se vencida, enche-se de ódio. Clama por Klingsor para vir ajudá-la e ele aparece empunhando a lança sagrada, arremessando-a contra Parsifal. Mas, este é puro e inofensivo, e por isso nada pode afetá-lo.
E a lança flutua sobre a sua cabeça sem feri-lo. Parsifal pega a lança e com ela faz o sinal da cruz, e o castelo de Klingsor com seus jardins mágicos desmoronam-se então fragorosamente…
O Terceiro Ato inicia-se na Sexta-Feira Santa, muitos anos depois. Um guerreiro andante, vestido com uma cota de malha negra, entra nas terras de Montsalvat, onde vive Gunermanz. Retira o elmo, coloca sua lança contra a rocha desnuda e, ajoelhando-se, começa a orar.
Gunermanz surge com Kundry, a quem encontrara adormecida no bosque. Reconhecendo Parsifal e a lança sagrada, regozija-se e dá-lhe as boas vindas, perguntando de onde vem.
Ele lhe havia feito a mesma pergunta anteriormente, quando Parsifal o visitara pela primeira vez e respondera: “Não sei”. Mas agora é diferente, porque obtém de Parsifal esta resposta: “Venho do sofrimento e da investigação”.
A primeira ocasião descreve as tentativas da alma para alcançar as realidades da vida superior, mas a segunda é a aquisição consciente do alto nível espiritual da atividade humana que, através da dor e sofrimento, pôde desenvolver-se.
E Parsifal conta como foi tristemente tentado por seus inimigos, e como pôde salvar-se usando a lança sagrada de modo contido, porque era um instrumento para curar e não para ferir.
A lança sagrada é o poder espiritual dos que têm vida e coração puros, que o devem empregar, porém só para propósitos desinteressados. A impureza e a paixão ocasionam sua perda, como no caso de Amfortas.
Muito embora o homem possuidor desse poder, possa empregá-lo numa certa oportunidade para alimentar 5.000 pessoas famintas, não pode converter uma só pedra em pão para saciar a própria fome; e ainda que possa usá-lo para estancar o sangue escorrendo de uma orelha decepada de um captor, não tem o direito de estancar o sangue que flui de seu próprio peito. Por isso, sempre foi dito: “Pode salvar aos outros, mas não pode (ou não quer) salvar-se a si mesmo”.
Parsifal e Gunermanz vão ao castelo do Graal, onde Amfortas está sendo importunado para celebrar o rito sagrado, mas ele se recusa, a fim de livrar-se das dores que lhe produziria ver ao Santo Graal.
Apertando o peito roga a seus seguidores que o matem. Nesse momento Parsifal se põe diante dele, toca sua ferida com a lança e o cura. Destrona Amfortas, porém, ao assumir a custódia do Santo Graal e da Sagrada Lança.
Só aqueles que têm o mais perfeito altruísmo associado a mais sutil discrição e discernimento, podem tornar-se guardiães do poder espiritual simbolizado na lança.
Amfortas usou-a para atacar e ferir seu inimigo. Parsifal não a empregaria nem sequer para defender sua própria pessoa. Por conseguinte ele podia curar, enquanto que Amfortas não, porque caíra em poder de Klingsor.
Kundry, que simboliza a natureza inferior, no último Ato diz só uma palavra: “Serviço”. Kundry auxiliará Parsifal, o Espírito, a realizar através dela o serviço perfeito. No Primeiro Ato ela se pôs a dormir quando Parsifal visitou ao Graal. Nesse estado, o espírito não pode elevar-se até aos céus, salvo quando o corpo morre ou adormece.
Mas nesse último e Terceiro Ato, Kundry também vai ao Castelo do Graal, porque está dedicada a servir ao Eu superior. E quando já se obteve o Espírito (Parsifal), alcança-se a libertação de que fala o Livro das Revelações: “Ao que vencer, eu o farei coluna no templo do meu Deus, e dele jamais sairá”. [Apoc., 3,12].
Estes são os que trabalham pela humanidade desde os mundos internos (3); e não necessitam mais do corpo físico. Estão livres da lei do renascimento, e, por conseguinte, Kundry morre. [Φ].
[Cf. 'Cristianismo Rosacruz', p.258/271. Max Heindel. Ed. Kier, 1944].
TERMINOLOGIA [®]:
(*) (¹). Renascimento: A lei do renascimento é a lei cármica: “O que o homem semear isso também ceifará”. [Gálatas, 6.7]. p- A alma humana transita em dois mundos: o material e o astral, onde se processa a “roda das encarnações”. Somente o ser alma-espírito liberto, pode acessar o terceiro mundo, o reino divino de Sophia* (³): “Quem não nascer da Água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus” [João, 3:5].
(*) (²). Ego: A Rosacruz Clássica européia distingue a persona mortal (persona, do gr. ‘máscara’) de a ‘rosa’, a alma-espírito imortal [o ser crístico dentro de nós]. O tradutor usa o termo Ego, porém Max Heindel aqui se refere ao aspecto que Carl Jung chama de ‘Self’:
“Entendo por “ego” um complexo de representações que ajusta o centro de meu campo de consciência… A partir disso, faço distinção entre ego e Self, na medida em que o ego é apenas o sujeito de minha consciência, enquanto o Self é o sujeito de toda a minha psique, também da parte inconsciente. Nesse sentido, o Self seria uma grandeza (ideal) que contém em si o ego”… [Cf. ‘Léxico dos Conceitos Junguianos Fundamentais’. Edições Loyola].
(*) (³). Reino de Sophia: Para saber sobre os três reinos cósmicos, existentes também dentro de nós, como microcosmo. [Clic: ‘O Mito de Sophia’ - ‘O Evangelho da Pistis Sophia’ (apócrifo)]. [®]
COMENTÁRIOS – (Extraídos desde o texto publicado em 2007):.
1. Magister Lux » Blog Archive » Prólogo de O Evangelho dos Doze Santos [Julho 7, 2007 at 6:11 pm •], disse,
[…] templário aonde, qual tolo Parsifal, adentramos sem saber que era o lendário Castelo do Graal [cf. Parsifal e o Santo Graal]. Ali, inesperada regressão reconectou-nos com o passado e a “longuíssima via”. E das […]
2. Magister Lux » Blog Archive » ANJOS. Categoria Angelical de Raphael: ‘Virtudes’. (Anjos Cabalísticos. Monica Buonfiglio) – [Setembro 3, 2008 at 12:52 pm •], disse,
[…] os trabalhos de cura [físico, psíquico e espiritual]. Traz a lança sagrada para curar; [ver: ‘A Lenda do Graal’ – O Parsifal de Wagner], ou a espada [símbolo do discernimento]. Raphael [De Rapha, curar + el - anjo divino, […]
3. Célia Leal Soares – [Fevereiro 4, 2009 at 6:34 pm •], disse,
Adorei entrar nesta pagina, porque tudo que está ai tem fundamento, acho muito importante que nós tenhamos interesse de pesquisar mais, sobre o assunto.
4. Magister Lux » Blog Archive » RENASCIMENTO DA ALMA E REENCARNAÇÃO – ‘O Evangelho dos Doze Santos’ – [Maio 1, 2009 at 12:42 am •], disse,
[…] E no Sul da França, certo dia surgiu inesperado convite para subir ao platô do Dólmen de Sem, em Montréalp-de-Sos. Dali se avista no outro lado do vale as ruínas de um castelo templário destruído pelos cruzados em 1.209. Fomos até lá e adentramos as muralhas para chegar até à cripta iniciática onde estão gravados os símbolos do Santo Graal, sem saber que acessávamos, qual tolo Parsifal, o lendário Castelo do Graal, reverenciado tanto por cavaleiros templários como por trovadores cátaros. [Cf. ‘A LENDA DO GRAAL’ - O Parsifal de Wagner]. [Φ].
INFORMES [®]: Contam que Richard Wagner [1813-1883], sentiu-se tocado profundamente quando leu pela primeira vez o poema ‘Parzival e Titurel’, do minnesinger  (trovador do amor cavalheiresco) Wolfram von Eschembach [1170-1220], sobre os cavaleiros templários do castelo do Graal…
No entanto, embora Wagner tenha concebido sua ópera ‘Parsifal’ aos 44 anos (1857), o ser interior guiou-o na travessia de duras provas e sofridas experiencias, como nas histórias de os ‘Ciclos do Anel’, para seu amadurecimento espiritual, antes de poder finalizá-la em 1882. E foi seu ‘canto de cisne’, pois no ano seguinte ele partia para o lendário Montsalvat…
"Os 12 Cavaleiros da Távola Redonda"
“Nesta ceia fraternal, preparada dia a dia, assim como na última vez, seremos também hoje confortados. Quem pelo bom ato se alegra pela Ceia será renovado: receberá conforto e ganhará o dom supremo”. [ 'Parsifal’. Ato I. Segunda Parte. Richard Wagner].
A simplicidade e o belo enredo do Parsifal de Wagner – que lembra as histórias do Rei Artur e seus cavaleiros da Távola Redonda -, inspirou-se originalmente nos temas de Chrestien de Troyes (séc. II), trovador cátaro do Sul da França e autor de romances da cavalaria, entre os quais ‘Perceval ou o Conto do Graal’.
A ópera de Wagner parece tocar a reminiscência espiritual das pessoas, que se sentem fascinadas pela beleza e ambiente mágico de Parsifal e a jornada em busca do misterioso Graal, símbolo arquetípico da meta mais elevada que se acha como que esquecida ou adormecida nas profundezas da alma do ser humano.
Teatro de Festivais.Bayreuth.Alemanha.“Quando saí do Teatro dos Festivais [Bayreuth], incapaz de dizer uma só palavra, eu sabia que havia experimentado a suprema grandeza e o supremo sofrimento”… anotou no seu diário Gustav Mahler, maestro e  compositor.
E a cantora Nellie Melba em ‘Melodies and Memories’, diz: “Não posso explicar o que aconteceu comigo durante o 1º Ato. O teatro deixou de existir, eu deixei de existir e apenas meu espírito, fora de meu corpo, flutuava no reino da música pura. Para quê estranha esfera aquela música me transportou? Suponho que nunca saberei”…
Na verdade, podemos encontrar a resposta no tema arquetípico e o simbolismo místico da lenda de Parsifal, que tocam a reminiscência da alma. Este fato torna-se mais compreensível na obra ‘Cristianismo Rosacruz’, em que Max Heindel nos desvela o significado amplo e profundo da lenda do Graal e o simbolismo no Parsifal de Wagner… [Φ]. (Campos de Raphael).
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 “Deus não abandona a obra de Suas Mãos”.Seus anjos cuidam de todas as criaturas:
“Vivei e deixai viver”…
Luz, Amor e Paz! – (Campos de ).
 [Revisto e atualizado em 11.11.10. Rio das Ostras/RJ.].

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